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domingo, 16 de agosto de 2015

POÉTICAS DE VIADUTO: CORPOGRAFIAS E PERFOGRAFIAS NA CIDADE DE CUIABÁ.

Daniela Leite
Jan Moura



Foto: Jan Moura
Uma vela está queimando
Hoje é nosso aniversário
Está fazendo hoje um ano
Que você me disse adeus

Eu não sei se nessa chama
Ainda queima a esperança
Eu só sei que a saudade
Ainda me queima o coração

Meus parabéns agora
E feliz aniversário amor
Estás feliz agora
Depois que tudo acabou
Depois que tudo acabou

Todo dia é o mesmo dia
Toda hora é qualquer hora
Quanto tempo vou viver
Sem esquecer o seu amor

Sua história mal contada
Não me sai do pensamento
Eu bem sei que foi desculpa
Teve alguém em meu lugar

(Diana - Compositor: Raul Seixas/ Mauro Motta)



Esses espaços, embora invisíveis, adquirem texturas diversas, “como se recobrissem as coisas com um invólucro semelhante à pele: o espaço do corpo é a pele que se prolonga no espaço, a pele tornada espaço”. (José Gil, 2004)


Como em todos os dias, milhares de pessoas iam e viam pela Avenida Fernando Correa da Costa, onde existe um viaduto construído para atender os anseios de uma população carente de melhorias no transporte e mobilidade urbana. A essas pessoas foram prometidas diversas obras que carregavam a promessa de uma “revitalização” na cidade. Pelos monumentos de concreto, que agora, decoram a cidade que um dia foi conhecida como cidade verde, passaria um tal de veículo leve sobre trilhos, ou carinhosamente chamado de VLT, que deixaria qualquer proposta de espetacularização da vida urbana parecendo festa de pobre. O veículo seria a solução para os problemas de mobilidade urbana e de quebra deixaria a cidade “chique no úrtimo”. Era o dia quatorze de julho de dois mil e quinze, em uma cidade chamada Cuiabá, capital de Mato Grosso, e já se passava mais de um ano do dia que foi prometida a sua inauguração. Era o dia do seu aniversário de um ano e o bebê não veio para a festa.

Foto: Daniela Leite


Vozes Livres sobre Tralhas, como foi batizado pelo Coletivo à Deriva, consistiu em uma composição/performance urbana, em que diversos artistas, pesquisadores, transeuntes e mais um tanto de gente inconformada com as políticas públicas da cidade, inclusive policiais militares que apareceram por lá, se encontraram para realizar uma festa de aniversário surpresa para o convidado que não viria, o VLT. 



Foto: Heidy Bello Medina

A ação/acontecimento foi mobilizada a partir da disciplina Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas II – Estéticas Emergentes na Cidade, ministrada pela Professora Doutora Maria Thereza Azevedo, através do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso. E consistiu em um programa performático que iniciou com o desenho e pintura de painéis ilustrativos de uma possível estação do VLT, e a decoração do viaduto da UFMT, na avenida Fernando Correa da Costa, com balões pretos inflados com hélio, alusivos a uma festa/luto de aniversário, além disso os performers fizeram bolo e doces para compor a festa. No final do dia todos subiram ao viaduto carregando os balões, painéis, instrumentos musicais, chapéus, narizes de palhaço e cantaram “Parabéns a Você” e comeram o bolo.


Foto: Jan Moura

 

O programa da performance, apesar de simples, quebrou a rotina das pessoas que transitavam naquela avenida, e faziam suas próprias leituras sobre o acontecimento. Naquela mesma avenida que diversas pessoas passavam todos os dias subitamente estava decorada com centenas de balões pretos, e lá em cima, onde não havia a presença de pessoas caminhando, habitavam durante esse tempo, algumas pessoas que pareciam comemorar alguma coisa. A ação teve o poder de deflagrar o surgimento de outras visões sobre aquele espaço, e provavelmente provocou a quem via questionamentos, que foram ou não respondidos.


Foto: Morgana Moura

 

A ação/performance, tem um cunho político bem explícito, mas ao mesmo tempo pode ser pensada como uma ação poética, para além da sua intenção questionadora, com inspirações nas teorias da arte relacional de Borriaud (2009), tem como desejo de se configurar como um disparador para uma experiência estética de convívio, cartografia e ocupação do espaço urbano da cidade. Como uma possibilidade também de micro-resistência à automatização urbana, ao explorar a festa no viaduto como um ato desviante do uso comum daquele espaço. A ação criou um campo de contato, uma oportunidade do público se perceber como participante, e por consequência ser também elemento desse jogo, e assim realizar uma experiência em arte e não uma fruição pura, fria e espetacular. 

Foto: Jan Moura



A possibilidade de uma arte relacional (uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autônomo e privado) atesta uma versão radical dos objetivos estéticos, culturais e políticos postulados pela arte moderna (BORRIAUD, 2009, p. 20).

Foto: Jan Moura



Ao sair dos circuitos oficiais da arte, o teatro, a dança, a performance, as artes visuais, a música etc, carregam um desejo de questionamento, não só pelo seu conteúdo, mas também por desejar colocar o corpo em novas experiências possíveis. Esse movimento contracorrente, a escolha, a busca por uma arte que se interaja de forma mais intensa com a vida, carrega além de um interesse artístico ou um experimentar com outros materiais, uma atitude política/estética.


Foto: Jan Moura


Guattari e Rolnik (1996) falam de uma produção de subjetividade capitalística, formada por uma cultura de massa, que produz “indivíduos normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão – não sistemas de submissão visíveis e explícitos (...), mas sistemas de submissão muito mais dissimulados” (1996, p. 16). 

Foto: Jan Moura




Já Deleuze e Guattari (1996) afirmam que somos segmentarizados por todos os lados e por todas as direções. Somos programados e esquematizados em estratos que nos compõe. Trabalhar, criar, brincar, circular, o ato de viver está fechado em segmentações espaciais e sociais. “A casa é segmentarizada conforme a destinação de seus cômodos; as ruas, conforme a ordem da cidade; a fábrica, conforme a natureza dos trabalhos e das operações” (DELEUZE E GUATTARI, 1996, p. 83-84).


Foto: Jan Moura



Vozes Livres Sobre Tralhas se propôs romper, com essas operações capitalísticas, com a segmentariedade que nos compartimentaliza, ao propor outras formas de ocupação daquele espaço, criando uma experiência, uma estética relacional (BOURRIAUD, 2009) que se deu entre os performers ao se mobilizarem para realização da ação, da relação com o espaço urbano e da relação que se estabeleceu entre as pessoas que passaram por ali, que buzinaram, gritaram ou apenas olharam sem entender. Estabelecendo assim a arte não só na materialidade dos balões ou dos painéis, mas exatamente no entre, formado pela conjunção de todos os elementos.



Foto: Jan Moura

 

As práticas performativas em espaços urbanos criam zonas de experiência micropolíticas (DUBATTI, 2007). A arte sai de seu patamar de obra intocável e se aproxima do cotidiano, passa a ser a experiência em si. A cidade se configura como um campo de experiências, pois permite e amplia a noção de proximidade, que para Bouriaud (2009) é o símbolo do estado de sociedade, pois permite o encontro fortuito e o acaso das relações, diferente de um estado de natureza que impedia qualquer encontro fortuito mais duradouro (BOURRIAUD, 2009, p. 21). 


Ao estar na rua, imerso na cidade, sujeito a todos os riscos e relações que se estabelecem, o corpo do performer percebe a cidade como um conjunto de condições interativas, de percursos, configurando o que Jacques e Brito (2010) chamam de corpografias urbanas, ou seja, uma espécie de cartografia corporal, que se entrelaça com o objeto cartografado que é a cidade inscrita pela presença do corpo e que, assim, o corpo recebe simultaneamente e se configura pela relação, mesmo que involuntária, com essa urbe. Desse modo, as corpografias são resultantes da experiência no espaço-tempo da cidade, onde o corpo relaciona e processa tudo o que experiencia. 
O ambiente (urbano inclusive) não é para o corpo meramente um espaço físico disponível para ser ocupado, mas um campo de processos que, instaurado pela própria ação interativa dos seus integrantes, produz configurações de corporalidade e ambiência (JACQUES e BRITO, 2010, p. 14).



Foto: Jan Moura

MARQUES e RACHEL (2013) entrelaçam performance e cartografia não só para ilustrar a multiplicidade de configurações que esta discussão tem tomado ao longo do tempo, como também procuram observar como elas estão constantemente em contato com a relação corpo e cidade, de modo que talvez possamos deduzir que proposições como os híbridos Perfógrafo e Perfografia (Performance + Cartografia), estejam interessados em insistir na natureza politicamente incorreta da performance como linguagem artística, uma vez que esta pode vir a ser uma potente forma de ativação de micro re-existências urbanas ao desdomesticar a relação entre corpo e cidade ao reafirmar o sentido público do espaço urbano. Nesta perspectiva, o Perfógrafo em suas Perfografias não estaria interessado na regulação de um espaço autônomo e privado em relação à cidade, pelo contrário, ele deseja ir sem ver, de corpo inteiro mergulhado no fluxo cotidiano urbano, experimentando as chamadas errâncias urbanas (JACQUES, 2012) ora fazendo visitas a territórios existenciais no espaço urbano, uma vez que toda obra de arte é uma habitação (PASSOS apud BARDAWIL, 2011).


A prática do performer e do cartógrafo apresentam uma lógica notadamente processual. Tanto a performance como linguagem artística quanto a cartografia parecem estar interessadas no engendramento de processos criativos no/com o mundo. A performance borra as fronteiras entre as linguagens artísticas, e também desloca o processo criativo para o centro do ato artístico, refazendo a noção de obra, artista e público, reaproximando a práxis artística da práxis vital. No que diz respeito à cartografia, a própria Rolnik é quem nos conta que esta, diferentemente de um mapa, que representa um todo mais ou menos estático, é um desenho em movimento que acompanha e se faz ao mesmo tempo em que o movimento de transformação da paisagem. Nesta perspectiva, podemos pensar a cartografia não como um método. O cartógrafo, nesse caso, não preestabelece um caminho em direção a uma meta, mas sim aposte nos caminhos, nos trajetos, nos percursos, em suma, na experimentação dos processos, o que não implicaria em uma falta de rigor, uma vez que este estaria diretamente implicado com a potência de vida. Deste modo, podemos entender que tanto o performer como o cartógrafo são aqueles que vão sem ver, mas vão de corpo inteiro, porque sabem de saída, que o caminho só se faz caminhando.


Arte aqui não é entendida como monumento, ornamento, decoração ou espetáculo, mas como engendramento com o mundo, em um encontro incontornável e irreversível com o outro urbano. Para Eleonora FABIÃO (2008), esta seria a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis, do agente com seu contexto histórico, do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. A potência da Performance residiria em seu poder de des-habituar, des-mecanizar, escovar à contra pelo. E parafraseando novamente Fabião: uma vez que o performer evidencia o corpo é para tornar evidente o corpo-cidade. O Perfógrafo experimenta a precariedade das formas errantes durante os seus movimentos de reterritorialização e testa a composição de uma performance urbana pelo trajeto, ao mesmo tempo em que faz da errância uma interrogação política das cidades. (BOURRIAUD, 2011)


Foto: Jan Moura




Se estivermos de acordo com Clarice Lispector, que dizia que perder-se também é caminho, podemos entender o Perfógrafo como um ser errante. Em suas Perfografias este convoca os transeuntes a transformarem os espaços ordinários da metrópole em espaços extraordinários, ao realizarem não uma intervenção, o que poderia dar margens ao entendimento da ação de um sujeito sobre um objeto, mas uma Composição Urbana. (AQUINO; AZAMBUJA; MEDEIROS, 2008).


Assim, a composição urbana Vozes Livres sobre Tralhas é a experiências do espaço pelos habitantes, passantes ou errantes que reinventaram esses espaços no seu cotidiano. Para os praticantes voluntários de errâncias são sobretudo as vivências e ações que contam as apropriações feitas a posteriori, com seus desvios e atalhos, e estas não precisam necessariamente ser vistas (como ocorre com a imagem ou cenário espetacular), mas sim experimentadas, com os outros sentidos corporais (JACQUES, 2012 Paola Berenstein).


Foto: Jan Moura




REFERÊNCIAS 
AQUINO, F. M.; AZAMBUJA, D.; MEDEIROS, M.B. Composição urbana (CU) e Ueb arte iterativa (UAI): práticas e teorias artísticas do Corpos Informáticos. In: Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais, 17.2008. Disponível em: http:// www.anpap.org.br/anais/2008/artigos/171.pdf. Acesso em: dez. 2012.
BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009. 
CARVALHAES, A. G. Persona performática: Alteridade e Experiência na Obra de Renato Cohen. São Paulo: Perspectiva, 2012. 
COHEN, R. Performance como linguagem. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs : Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto, Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro : Editora 34. 1995
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Felix. Mil Platôs : Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 3. Trad. Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. Rio de Janeiro : Editora 34, 1996
DEWEY, John. Arte Como Experiência. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2010. 
DUBATTI, Jorge. Filosofía Del Teatro I: Convivio, Experiencia, Subjetividad. Buenos Aires: Atuel, 2007.
 FABIÃO, E. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Sala Preta, Revista de Artes Cênicas, São Paulo, n. 8, p. 235-246, 2008. 
GIL. J. Movimento Total. São Paulo: Iluminuras, 2004.
GUATTARI, E e ROLNIK, S. 1986 Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes.
GUATTARI, L. F. Caosmose: um novo paradigma estético. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira; Lúcia Claudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1992. 
JACQUES, P. B. Elogio aos errantes. Salvador: EDUFBA, 2012. 
JACQUES, Paola Berentein e BRITO, Fabiana Dultra. Corpografias Urbanas: Relações entre Corpo e Cidade. In LIMA, Evelyn Furquim Werneck (Org.). Espaço e teatro: do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. 
LISPECTOR, C. A cidade sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 
MARQUES, D. RACHEL, D. PERFOGRAFIA performance como cartografia, performer como cartógrafo. In. Revista Redobra, v. 11, p. 152-161. Salvador, 2013 
PASSOS, E; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Org.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012. 
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO experimental org. Ed. 34, 2005. 
ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. 
MARQUES, D. RACHEL, D. PERFOGRAFIA performance como cartografia, performer como cartógrafo. In. Revista Redobra, v. 11, p. 152-161. Salvador, 2013.

Foto: Jan Moura

sábado, 15 de agosto de 2015

Intervir como interstício social: novos olhares sobre a cidade

Paulo Vitor Marques Bernardino
            
       Ocupação, movimento e deslocamento representam a essência da intervenção urbana “Vozes Livres sobre Tralhas” realizada no dia 14 de julho de 2015 pelo Coletivo à Deriva e pelos discentes da disciplina Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas – Estéticas Emergentes na Cidade dos cursos de mestrado e doutorado em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso.
            A origem desta ação surgiu do incômodo com relação às obras inacabadas espalhadas pela cidade. Obras iniciadas porque Cuiabá foi escolhida como uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014 realizada no Brasil. Dentre elas, o veiculo leve sobre trilhos (VLT) foi a principal e a mais onerosa e, ainda, se tornou o elemento central na construção de sentidos sobre o “legado” do mundial para a cidade.
            No artigo “Sentidos do VLT em Cuiabá: Ei! Olha o trem...”, publicado em 2013, foi identificado “o discurso do deslumbramento, o discurso da expectativa, mais ainda, o da esperança – ou seria o da certeza – de que todo o preparo da cidade para a Copa 2014 é essencial e seus resultados trarão tudo de bom!” (POSSARI, 2013, p. 172). Os benefícios prometidos superaram os questionamentos sobre planejamento, investimento, fiscalização e prazos das obras.
            Um ano após o evento qual é o discurso? Que sentido o VLT carrega? A partir das conversas iniciais para definir o tema e a metodologia da intervenção e da interação com o público durante e depois da ação percebeu-se que é exatamente o oposto.
            Por esta razão a intervenção optou por trazer movimento à imobilidade do VLT e expressar de diversas formas o inconformismo latente de todos os cidadãos que deveriam estar usando o modal, mas ao invés disso deslocam-se pela cidade à margem dele.
           
Preparar

            Durante as aulas de Poéticas Emergentes na Cidade foram discutidos conceitos para pensar a cidade a partir da arte contemporânea e também compartilhados os olhares sobre a cidade feitos durante o deslocamento cotidiano através de relatos e fotos.
            Não demorou muito para que as obras inacabadas da Copa viessem à tona, especialmente o VLT. Afinal elas estão espalhadas pela cidade e no ir e vir do dia a dia relembram as promessas não cumpridas pelos governos.
            Em seguida foi definido o VLT como espaço para intervenção. Então o olhar voltou-se para as estações do modal, sendo que apenas uma foi concluída das mais trinta previstas no projeto. A “estação da UFMT” foi escolhida como lugar de suporte da ação artística.
            Para decidir como seria a ocupação e apropriação daquele espaço na intervenção, após uma aula, os discentes foram caminhar pelos trilhos e coletar as primeiras impressões sobre o local.

Figura 1 – Visita aos trilhos do VLT
Fonte: Elaborado pelo autor

O lugar entendido como “um receptor não-fixo e não-passivo, mas variável e de caráter transitório, um multiplicador capaz de trazer ao projeto de intervenção um alto grau de visibilidade e interatividade com seus componentes espaciais e humanos, tendo-se em conta elementos primordiais como: os indivíduos, o fluxo urbano coletivo, o trânsito, a arquitetura, a paisagem, o clima e os demais fenômenos ocorrentes nesse espaço público onde tal intervenção se inscreve (BARJA, 2010, p. 213).
            As discussões partiram para a metodologia. Rasgos, feridas, covas abertas, presentes quebrados e imobilidade são algumas ideias que surgiram para descrever o VLT. Como representar estas marcas da cidade? Com ironia. Com uma festa de aniversário de um ano do “não VLT” na “não estação”.
            A partir deste tema foi decidido pintar painéis para ilustrar a bilheteria e os vagões do VLT, fixar balões entre os trilhos, levar itens de festa (bolo, brigadeiro, etc) para fazer a comemoração do aniversariante que não veio após a caminhada pelos trilhos ao som de instrumentos de percussão.

Figura 2 – Painéis e balões instalados nos trilhos do VLT

Fonte: Elaborado pelo autor

            No dia 14 de julho o grupo iniciou a pintura dos painéis e começou a instalar os balões. Neste momento o trabalho coletivo ficou mais evidente, cada um pintando uma parte dos painéis, outros fazendo as tintas nas cores necessárias ou fazendo o registro fotográfico. Cada participante contribuindo a sua maneira para a intervenção.

Intervir

            Caminhar sobre os trilhos do VLT em meio ao barulho, balões e painéis, enquanto carros movimentavam-se rapidamente dos dois lados da “estação” chamou a atenção para aquele espaço ao expressar a indignação com a situação da cidade a respeito das obras da Copa e dizer que aquelas tralhas não devem ser assimiladas como parte da paisagem urbana.
Na construção do VLT foi prometida mobilidade, agilidade e facilidade para as pessoas, mas hoje os vestígios deixados representam a imobilidade, pois atrapalham o trânsito.
Na intervenção o espaço prometido foi ocupado e alterado com os materiais comprados e produzidos para criar o ambiente aonde o ir e vir sobre os trilhos pudesse inserir movimento, fluxo e mobilidade que deveriam ser elementos presentes naquele local.

Figura 3 – Caminhando sobre os trilhos
Fonte: Elaborado pelo autor
É justamente para interromper o fluxo da padronização e do estigma que as práticas coletivas de intervenção urbana propõem outra forma de olhar e pensar os espaços urbanos (AZEVEDO, 2013).
Como olhar o espaço que em um ano mudou do discurso da esperança para o discurso da indignação e do descrédito? Na intervenção foi questionado o que vai acontecer agora e o que será feito sobre o ”não VLT”?

Se estas perguntas foram ouvidas ou até mesmo respondidas não há como saber. A intervenção tinha intenção enquanto atividade artística e pela sua natureza também possuía uma abordagem política.
Entretanto, ao considerar esta ação como arte relacional a elaboração de sentido ocorre a partir da intersubjetividade e do estar junto para criar um espaço de relações humanas que sugere trocas além daquelas instituídas pelos sistemas – um interstício social (BOURRIAUD, 2009).
Na arte relacional as figuras de referência da esfera das relações humanas são formas artísticas tais como as reuniões, as manifestações, os diferentes tipos de colaboração entre as pessoas, os jogos, as festas, os locais de convívio, etc. (BOURRIAUD, 2009).
Neste caso a interação, o estar junto, entre participantes e espectadores ocorreu de forma gestual (buzinar, acenar com a cabeça ou com as mãos) e oral (frases como: “Cadê o VLT?” “Vão trabalhar!” “Está morto!”). Além disso, após a comemoração – cantar parabéns e comer o bolo – brigadeiros foram entregues para alguns motoristas.
           
Figura 4 – Cantando Parabéns para o aniversariante que não veio
Fonte: Elaborado pelo autor
As relações criadas, as interações e as trocas que ocorreram durante a intervenção contribuíram nos processos subjetivos por meio da experiência individual e coletiva. Para Guattari e Rolnik (2013) os indivíduos vivem a subjetividade numa relação de alienação e opressão ou numa relação de criação que os autores denominam de processos de singularização.
Através da intervenção buscou-se produzir novas maneiras de ver, sentir, perceber, ser e estar no mundo em contraposição à fomentação de visões utópicas.  Novas subjetividades são criadas de forma diferente daquelas produzidas pelo controle do capitalismo e do poder disciplinar (MAZETTI, 2006).
Portanto, os processos de singularização são as linhas de fuga das normatizações dos modos vida e as “ações artísticas na cidade surgem como possibilidades de engendramento de devires singularizadores que nos aproximam da vida” (AZEVEDO, 2013).

Comunicar

A arte contemporânea opera no regime de comunicação em rede tendo com um dos princípios a construção da realidade (CAUQUELIN, 2005) que se pode relacionar com a definição da comunicação como o “processo simbólico no qual a realidade é produzida, mantida, reparada e transformada” (LIMA, 2001) em sua abordagem cultural.
A intenção da ação artística foi de despertar uma nova forma de olhar um espaço urbano, estimular novos pensamentos e sentimentos sobre esta realidade. Embora efêmera, a intervenção durou aproximadamente uma hora, o registro através de fotos e vídeos permitiu estender a sua potência ao compartilhar estes arquivos do deslocamento nas redes sociais digitais.

Figura 5 – Prints de comentários e compartilhamentos no Facebook
      

Os compartilhamentos e os comentários fizeram que os registros da intervenção circulassem pela rede e permitiu interação através do ambiente digital aqueles que não presenciaram a ação.
Neste sentido o uso das tecnologias da informação e da comunicação facilita o acesso às produções artísticas e ainda possibilita estabelecer um diálogo sem qualquer tipo de pauta ou restrição dos veículos de comunicação tradicionais.

Figura 6 – Nota sobre a intervenção publicada no Jornal Circuito de Mato Grosso

                Como resultado da intervenção percebe-se a arte como uma proposição, onde uma situação foi criada a partir de processos colaborativos e da relação com o outro para construir sentidos por meio da experiência com a intenção de estimular o pensamento sobre a cidade de forma singular.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Maria Thereza. Passeio de sombrinhas: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. Revista Magistro, nº08, 2013.

BARJA, W.. Intervenção/terinvenção: a arte de inventar e intervir diretamente sobre o urbano, suas categorias e o impacto no cotidiano. Revista Ibero- Americana de Ciência da Informação, Brasília, Vol. 1, N. 2, ago. 2010.

BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009.

CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. Trad. Rejane Janowitzer. Coleção Todas as artes. São Paulo : Martins, 2005.

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografia do desejo. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

MAZETTI, Henrique. Entre o afetivo e o ideológico: as intervenções urbanas como políticas pós modernas. ECO-POS, vol. 9, n° 2, p. 122-138, 2006.

LIMA, Venício Artur de. Mídia: Teoria e política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

POSSARI, L. H. V.. Os sentidos do VLT em Cuiabá: Ei! Olha o trem... Revista Eletrônica Documento/Monumento, v. 10, p. 166-180, 2013.